Feminismo e Vegetarianismo, uma história de amor

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Não existe um jeito certo de comer, especialmente dietas ou padrões de alimentação para o corpo feminino. O que existem são perspectivas sobre a comida e sua relação com cada organismo, que muda de mulher para mulher. O feminismo, como um movimento que se fundamenta na liberdade – e portanto, deveria sempre se desprender de dogmas ou regras sociais –, pode pensar também sobre alimentação, desde que esse seja um processo dialógico e nada contratual. Podemos pensar sobre o feminismo na alimentação de forma muito direta: uma alimentação feminista é aquela pela qual as mulheres lutaram e ainda lutam para ter justamente a liberdade de escolher o que vai em seu prato.

 

Dito isso, não pense que determinada dieta ou posicionamento político frente à alimentação é o único caminho para comer dentro de uma ideologia feminista, pois o ideal sempre será aquilo que te deixa confortável e se sentindo bem consigo mesma. O que podemos sugerir é pensar nas consequências do que você está comendo, pois o que come pode, extrínseca ou intrinsecamente, reforçar o patriarcado, atingindo as mulheres. Mas o principal, sempre, é cuidar de você mesma, ter prazer na hora de comer e libertar-se de estereótipos de saúde e cuidado com o corpo através da alimentação. Viemos por meio desta, então, comentar brevemente sobre a história de amor entre o feminismo e um dos tipos de alimentação que consideramos como – também – uma forma de celebrar a liberdade.

 

O veganismo/vegetarianismo e o feminismo têm se relacionado desde os anos 80, quando ambos os movimentos passaram a crescer, especialmente através da publicação “A Política Sexual da Carne”, da autora Carol J Adams. Essa publicação traz ótimas metáforas visuais, reflexões e críticas sobre a relação entre a produção de carne e de derivados animais com a exploração e a extrema sexualização do corpo feminino. O argumento para essa relação é que mulheres e animais – de formas distintas – sofrem com o patriarcado, especialmente através da exploração do corpo vivo, da tentativa de domesticação e da crueldade nas relações. Trazendo para o bom português algumas das metáforas do livro, podemos nos perguntar porque a expressão “sentir-se como um pedaço de carne” é usada quando uma mulher é diminuída e reduzida ao seu apelo sexual. A carne tem uma conotação de abuso, de puro usufruto pelo homem quando consumida; sentir-se como uma carne reflete esse abuso e a falta de valorização além do mero prazer.

 

A limitação das escolhas também é outra das conexões na crítica vegetariana e feminista. Além do fato óbvio de que os animais têm suas escolhas totalmente desconsideradas para servirem a um único objetivo – o consumo –, eles ainda sofrem por essa falta de liberdade, tem de servir ao homem, já que são tratados como uma raça inferior. As mulheres são, mesmo nos tempos atuais, privadas de muitas escolhas. Infelizmente, ainda existem aqueles posicionamentos extremamente machistas (que não se limitam a indivíduos, mas a instituições também) de que a mulher também tem objetivos específicos nas relações sociais e muitos deles estão ligados diretamente com o servir ao homem.  A transgressão desses preceitos passa pelo empoderamento da própria mulher; esse processo exige a compreensão da nossa história, onde houve (e há) sofrimento e superação. A partir do empoderamento feminino, então, a empatia com uma outra entidade viva que, assim como nós, muitas vezes, é interrompida e calada passa a ter um nível diferente. Nesse sentido que o vegetarianismo e o feminismo caminham juntos buscando por um mundo mais igual e menos cruel.

 

ADAMS, Carol J. Política sexual da carne: a relação entre o carnivorismo e a dominância masculina. Tradução Cristina Cupertino. 1ed. São Paulo: Alaúde Editorial.

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